terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Appleton Square - Lisboa

A partir de 13 de Janeiro a 5 de Fevereiro estará patente a exposição de BELÉN URIEL NI BLANCO, NI NEGRO. A expressão que serve de título a esta exposição de Belén Uriel (Madrid, 1974) aponta imediatamente no sentido da ambiguidade. Na forma negativa em que se enuncia, Ni blanco, ni negro tem a dupla capacidade de nomear o intervalo como fulcro do projecto que agora se apresenta, e de eleger a dúvida como método dilecto para a sua exploração. Tomadas no seu conjunto, as peças aqui reunidas dão continuidade a um corpo de trabalho no qual a artista se ocupa do modo como a desconstrução das estruturas materiais do nosso quotidiano permite revelar a natureza contingente dos mecanismos simbólicos que lhes subjazem e os redutos discursivos que nelas convergem. A primeira obra que encontramos, também ela intitulada Ni blanco, ni negro (2010), tem por base a observação directa de um fenómeno político-cultural muito concreto: em Outubro de 2007, o parlamento espanhol aprovou a chamada Lei da Memória Histórica, cujo texto determina a retirada e o desmantelamento dos símbolos franquistas ainda existentes nos monumentos públicos. Sendo, em si mesmo, um acto de inegável complexidade político-filosófica, este gesto de apagamento institucional deixa indelével o confronto ideológico que se joga nesta decisão, e que tem por base o cariz propagandístico de uma parte significativa da escultura monumental. Foi precisamente sobre os dispositivos que sustentam a valência propagandística da escultura, e não sobre a sua vertente iconográfica, que Belén Uriel se debruçou para a realização desta obra.
Embora o outro trabalho presente nesta sala não nos devolva uma resposta cabal a esta questão, a sua estrutura contribui de forma substancial para aprofundar o universo aflorado na exposição. Composta por quatro imagens de guardanapos de cerimónia, esta obra amplia a temática da solenidade levantada pelo pedestal, invertendo, porém, todas as condições da peça anterior. Se o acesso ao objecto em si nos é agora negado por intermédio da sua apresentação como imagem (assumindo-se assim como uma representação), não deixa de ser possível perceber-se que estamos perante sucessivos arranjos manuais de uma mesma matéria vernacular – o guardanapo – cujo estatuto simbólico está associado a normas protocolares, que tanto se podem aplicar em meros encontros familiares como em eventos de estado. Contrariando a perenidade do pedestal, os guardanapos de cerimónia são esculturas circunstanciais e efémeras que pretendem sinalizar e conferir dignidade a um evento cuja realização se inicia no momento em que as próprias estruturas se desfazem.
É notória também a forma como ambos, pedestal e guardanapos, enunciam uma ausência. Se ao pedestal falta a estátua que lhe justifica a existência, também os guardanapos se afirmam para lá de qualquer referência à sua hipotética aplicação cerimonial. No seu conjunto, estes últimos configuram um catálogo de onde sobressaem as diferenças entre cada exemplar, centrando a tónica desta obra mais na variável observada do que no estatuto concreto de cada uma das quatro formalizações.
Esta é, aliás, uma ideia que aparece reforçada em Sixteen Arrangements (2010), a última obra desta exposição. Aquilo que aqui nos é dado a ver são 16 imagens, dispostas em banda, de outras tantas composições elaboradas a partir de maquetas das peças presentes em Ni blanco, ni negro. Ni blanco, ni negro fala-nos de transitoriedade. De certa forma, é possível encarar todas estas obras como provas de estado, como instâncias intermédias de um acto performativo que deliberadamente omite o seu início e o seu fim. Mesmo as formas aparentemente acabadas dos guardanapos e maquetes são subvertidas pelo contexto serial em que são incluídas, sublinhando o processo combinatório que as impulsionou e cujo objectivo último é a sua própria representação. Assim como a fotografia nivela e retira espessura aos objectos que apresenta, também a repetição exaure estes objectos de todo o simbolismo que pretensamente lhes cabia para os transformar em lastros, em corpos que balizam um intervalo, em momentos suspensos prestes a converterem-se em gesto.(Bruno Marchand, Janeiro de 2011)
Appleton Square | Rua Acácio Paiva, 27, R/c| Lisboa | 3ª a Sáb. das 15h às 20h | www.appletonsquare.pt

MÓDULO CENTRO DIFUSOR DE ARTE - Lisboa

Até 8 de Fevereiro está a decorrer a exposição de uma nova série de pinturas que sucedem ao trabalho mostrado na última individual de Daniel Melim ( 1982, Coimbra ) no Módulo, onde o pintor construía em primeiro lugar o modelo, que depois pintava sob uma placa de vidro. Aqui nestes últimos trabalhos, Daniel Melim retoma o a construção prévia do modelo a ser pintado. “ Estas novas pinturas são feitas com tinta acrílica sobre uma membrana acrílica transparente, que é o seu suporte. Esta película é colocada esticada na vertical entre o observador e a coisa – modelo. Neste processo começo por pintar em primeiro lugar os pormenores, e no final o fundo, a imagem toma forma. Durante o processo, só pode ser vista a pintura se der a volta e for ao outro lado, à face da película que está voltada para a coisa - modelo, pois é desse lado que a pintura se vai dar a ver no final ao espectador. O que sucede, então, é que na verdade durante a maior parte do processo só vejo as “costas” da pintura.Se, por um lado, isto torna necessário o estabelecimento de um grau de rigor na escolha e manutenção do ponto de vista e de outras variantes do pintar (para que este processo de pintura “invertida” não desemboque em cegueira inconsequente), por outro lado liberta-me da pressão de estar sempre a lidar com os meus próprios juízos sobre o que faço. Ou seja, maior parte do tempo o observador apenas tem, com um único olho aberto, como no perspectógrafo Renascentista, de “copiar” para a película as formas e as cores que vê do modelo através da própria película. Os modelos são feitos de materiais diversos ( p.ex.: tecidos, paus e garrafas de plástico) e instauram presenças evocativas mas difíceis de nomear com precisão. Nesse sentido, para que seja livre a relação do espectador com a pintura, nem as obras nem a exposição têm título.” (Daniel Melim) Daniel Melim formou-se em Artes Plásticas- Pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e em 2007 foi Prémio EDP Novos Artistas 2007. Legenda da imagem: Sem título, 2010, acrílico sob membrana acrílica, 120 x 115 cm.
MÓDULO CENTRO DIFUSOR DE ARTE | CALÇADA DOS MESTRES, 34 A | LISBOA | Terça a Sábado, excepto feriados, das 15h às 20h

Allarts Gallery - Lisboa

A partir de 20 de Janeiro a 15 de Fevereiro estará a decorrer a exposição de pintura de diversos pintores que, partindo da abordagem ao tema Mulher, o trataram em perspectivas diversas e nas suas linguagens artísticas e conceptuais. Partindo assim de um conjunto aparentemente eclético de composições, em estilos, técnicas e alcances estéticos variados, o resultado manifesta-se surpreendente atenta a harmonia global desta exposição colectiva que, verdadeiramente, encontra esse equilíbrio na forte correlação e interacção dos elementos que, em cada obra, deixam transparecer a sensibilidade e os afectos indissociáveis da essência de ser Mulher. Artistas participantes: Ana Cristina Dias, Teresa Viotti, Françoise Collandre, Lluïsa Jover, Ada Breedveld, Lopez Herrera e Jorge Valdivia.
Allarts Gallery | Rua da Misericórdia, 30 | Lisboa (Chiado) | Terça a Sábado das 10h às 19h |www.allartsgallery.com

MARZ Galeria - Lisboa

A partir de 15 de Janeiro a 13 de Março, estará patente a primeira exposição individual de Ana Manso intitulada, UNIVERSAL.
Recorrendo à pintura sobre tela, papel e parede (a última executada, necessariamente, in situ), a presente exposição reflecte o diálogo que a artista estabelece com o medium da pintura, bem como a avaliação e distância crítica que procura manter com a sua obra, a partir do momento em que começa a espalhar óleo ou a aplicar spray sobre a superfície escolhida, até o momento em que monta o trabalho no espaço, espacializando-o, criando com ele uma envolvência para o espectador. Tendo apresentado e iniciado a sua produção no âmbito da iniciativa O Declive, tratando-se de uma individual, esta exposição apresenta a amplitude da sua ainda jovem produção e o modo como procura articular os seus diversos suportes, que englobam o papel impresso com imagens encontradas, de natureza mítica, que sofreram um processo de redimensionamento e pintura, telas de dimensões médias, e por fim, as paredes do próprio espaço expositivo. Estes suportes são estruturados de forma a tecer uma narrativa, uma cadeia ou tecido de ideias associadas. No caso da exposição, a artista estrutura e dá corpo a um texto visual provisório, utilizando determinados sinais gráficos, neste caso, o til, que em português serve para indicar a nasalidade da vogal, bem como uma espécie de ponto final fragmentado. Inseridos no espaço, a artista liga e modula os diversos trabalhos através desta quase construção frásica. Quando observados, estes sinais, juntamente com o alinhamento das peças, anunciam momentos de silêncio e de calma, outros de grande expressividade, ou até mesmo de exultação. Estes instantes - de tensão, percepção, colisão ou fluxo, de intersecção e de cruzamento - gerados por operações de contraste, oposição e equilíbrio, à imagem do movimento sereno das marés ou então, e por contraste, o impacto das vagas que por vezes se faz sentir, imprimem valores de unidade, harmonia, domínio, conflito, repetição e variação à leitura.
Embora o trabalho de Ana Manso provenha da cor, a sua pintura é um regresso ao primado do nocturno. Quando observado, o manto negro que cobre a cor dificulta a visualização, inibindo a fácil descrição ou designação de cada trabalho. As texturas inconstantes do medium, aliado a cores mutáveis, que alteram subtilmente com a qualidade de luz existente, encontram-se imersas numa escuridão que se antecipa e que regride, numa espécie de vai e vem. Primeiro plano e fundo confundem-se, agitam-se. Não figurativa, indefinida, atmosférica, não hard edge, o processo da pintura em si, a artificialidade da pintura como puro gesto e cor, é adoptada pela artista para produzir e apresentar imagens onde a forma, a reverberação e o sentido emergem da superfície pintada. Extraídas das zonas mais remotas do consciente, a figura que surge deste lugar – o abismo ou eclipse – é um símbolo de enorme valia universal. ND
MARZ Galeria | Rua Reinaldo Ferreira 20-A | Lisboa | Quarta a Sábado das 12h às 20h e Domingo das 14h às 20h | www.marz.biz